A região que habitamos, chamada de Iguaçu, já foi um santuário de mastodontes. Essa hipótese, corroborada por evidências arqueológicas, abriu caminho para a criação de Perto do Fogo, um espetáculo que aborda, poeticamente, o enfrentamento da humanidade com seu provável fim.
Por serem experientes em matéria de extinção, as mastodontes-anciãs são evocadas para testemunhar e guiar nossa jornada final.
Falhamos como espécie? As condições ecológicas que garantem a sobrevivência humana estão em risco por nossa própria ação. A emergência ambiental - evidente em catástrofes como as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, e os incêndios no Pantanal, em 2022 - resulta de um modelo extrativista e predatório que adotamos como paradigma econômico.
Na cosmovisão Tukano, a cobra-canoa trouxe a vida para a Terra. A gente-peixe, embarcada na canoa, formou os diferentes povos que habitam o planeta.
Em muitas culturas, diferentes deidades representam a serpente, sempre com extraordinários poderes. As cobras entrelaçadas que formam o DNA de cada célula de nosso corpo transportam memórias e instruções para a travessia.
Em nosso espetáculo, a Serpente Cósmica convida o público para a imersão na experiência teatral dentro da mata, prestando reverência às plantas como mestras.
A criação cênica ecopoética requer a interação radical entre humano e não-humano, para que a memória e os ecos do espaço sejam tão escutados quanto as nossas vozes.
Corpo-espaço, gente-planta: as plantumanas, anfitriãs do espetáculo, nascem do desejo de reconexão com a natureza através de uma anatomia imaginária. Elas são as habitantes que guiam os espectadores como viajantes da imersão. As performers experimentam uma reintegração ambiente-corpo-criação artística. Uma possibilidade de criar não sobre as plantas, mas com elas, de criar não apenas no espaço, mas com o espaço. Entre sangue e seiva, espinhos e unhas, raízes e pés, cabelos e cipós, casca e pele, ouvido e fungo, galhos e ossos, refazemos o elo com a natureza.
No espetáculo, o público é convidado a escutar os conselhos dessas anciãs tão experientes em matéria de extinção.
No mesmo sentido, a peça adota uma perspectiva ecofeminista ao instaurar uma crítica às formas como tanto a natureza, quanto as mulheres, foram tratadas como recursos a serem explorados.
A histórica violação da terra e dos corpos femininos sob domínio masculino-patriarcal é tematizada desde um convite a todas, todos e todes: o de voltarmos a habitar o corpo-terra como estratégia de reencantamento e de regeneração.
A Fênix é uma ave mitológica que voa sobre tudo o que morre e renasce.
Filha do sol, ela é a portadora do fogo e assim como o fogo, combina a criação e a destruição. A memória e os sonhos criam ninhos secretos de fogo, esperando um sopro para levantar-se.
Guardiã da eternidade, a Fênix é a promessa de que sempre haverá um novo começo para a vida, mesmo que não seja a vida humana. Também o teatro é pensado e vivenciado como forma de recuperar o fogo como pulsão de vida. Segundo Artaud, o teatro é terra do fogo onde os corpos e a vida se refazem a partir de uma transformação orgânica e mágica.
FICHA TÉCNICA: Direção Artística: Angi Lazzareti e Fabio Salvatti Dramaturgia: Angi Lazzareti com colaboração de Fabio Salvatti e Cabocla João Referências, Inspirações e Ecos: Ailton Krenak e Ciclo Selvagem; Emanuele Coccia, Jeremy Narby, Stefano Mancuso, Jesusa Rodriguez, Eduardo Galeano, Gaston Bachelard, Antonin Artaud, Kazuo Ohno, Silvia Federici, Conceição Evaristo, Xochitl Solano, Lisa Bufano, Pedro Louvain, Jussara Bahi de Souza, Leandro Bahi de Souza, Adele Lazzareti, Cazuza e Rita Lee Performers: Agatha Batista, Cabocla João, Dalton Hadd, Guadalupe Anaya, Jhony León, Karen Giménez, Miguel Molina, Nataly Mora Rios, Tati Bafo, Zary Wong Performer Convidada: Sueli Crespa Coordenação de Projeto: Rafael Koehler Produção: Tatyane Ravedutti Pré-produção: Tamires Souza Iluminação: Fabio Salvatti Sonoplastia: Angi Lazzareti Cenário e Figurinos: Diego Souza e Ana Carolina Acom Costura: Nice Dias de Souza Cenotécnica: Ianm Pletitsch Azevedo Preparação Vocal: Lucila Tragtenberg Violão e Técnico de Som: Danilo Bogo Coordenação de Comunicação: Giovanne Faccio Xilogravura: Lucie Schreiner Design Gráfico: Maicon Rodrigo Rugeri Fotografia e Videografia: John Alex Velasquez Assessoria de Acessibilidade em Comunicação: Paula Gotelip.
A temporada de estreia aconteceu entre 24 de outubro e 09 de novembro de 2025, com seis apresentações em um bosque na Vila A, em Foz do Iguaçu, tendo um público estimado de 300 pessoas.